morro afogado, mas não de sede

Sob a torneira da realidade, minhas mãos formando conchas. O jato de água representa a existência, o existir num fluxo contínuo, como falava Heráclito. Uma grande sede.

 

esguichando abundante, forte e rápida, a existência me encharca dos pés à cabeça. Entretanto, dela quase nada consigo reter nas mãos para beber. Paradoxo.

Tento girar a torneira da realidade para diminuir a pressão do fluxo, mas parece que ela está emperrada. Dura realidade! Emprego toda a minha força, até grito, mas nada.

Tanto esforço só faz aumentar a minha sede. Minha língua está pra fora. Eu já estou meio pra fora de mim mesmo, ausentando-me do meu ser que desfalece lentamente. 

Inconsequente, perco a razão: resolvo meter a boca diretamente na torneira! Então a água da existência invade com ímpeto a minha goela e instantaneamente passa a jorrar das minhas narinas e ouvidos. Minha cabeça agora é um chafariz.

O meu ser afogou-se na existência, tragicomicamente eu morri!

Acordo então subitamente. É madrugada, estou suado e com sede.

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