Arquivo para setembro \23\UTC 2010

cool ontem, hoje blasé

“Quando notei Miles Davis em pé num canto escuro, tentei tocar com mais vigor porque ele estava na banda de Bird. Parecia que Miles sempre ficava pelos cantos. Ele se aproximou enquanto eu guardava o instrumento, por volta das 3h da manhã. Fiz um ar de indiferença cool. Eu costumava ensaiar aquela pose. Estávamos os dois de óculos escuros. Ninguém via o olho de ninguém. Vai estar de olho aberto no ensaio de amanhã?, Miles me perguntou. Acho que sim. Eu agi como se me lixasse para aquela merda de ensaio. No [estúdio] Nola. Às 4h. Miles fez questão de deixar bem claro que não dava a mínima se eu ia aparecer ou não.” (o trombonista Mike Zwerin, final da década de 40, em Kind of Blue: a história da obra-prima de Miles Davis, Ashley Kahn, ed. Barracuda, 2007)

Miles Davis e John Coltrane, entre os anos 50 e 60

no dentista

Dando início a um tratamento de canal, o dentista extraiu hoje o nervo do meu dente. Agora já não sinto mais dores, nem dente.

Durante o procedimento, que durou uma meia hora, eu lá, anestesiado, calado com a boca bem aberta, pensava comigo: é… acho que preciso também tratar o canal entre a minha cabeça e o meu coração, e extrair deste o nervo, quem sabe…

também sou um deles, e agora?

“Rainer observaria mais tarde, no intervalo de um segundo para outro, tive a visão cristalina de que Schygulla seria um dia a estrela de meus filmes, mas eu era covarde demais para dizer isso a ela. O que ele disse, sim, certa vez, foi que os capricornianos eram os piores e que não queria saber deles para nada. Isso fez com que ela o evitasse daí por diante… Porque Rainer não sabia mas Hanna era um deles.” (O Amor é mais frio que a Morte, Robert Katz, ed. Brasiliense, 1992)

Ele e sua musa em Berlin, um ano antes de sua morte.