Arquivo para outubro \20\UTC 2010

um cofrinho, um coração

É preciso deixar claro que, antes de tudo, este blog celebra a vida. A morte, enquanto não-ser, ou seja, ausência ou falta de ser, é tão-somente considerada aqui a partir da relatividade de sua existência e de seu conceito em relação àquela. Em outras palavras, não dá para separarmos uma da outra, pois são como as duas faces de uma mesma moeda. Uma moeda chamada amor, que, de um lado, tem o seu valor impresso, isto é, a vida; do outro, uma espécie de máscara mortuária, a cara ou face da morte. Com o perdão da tautologia, qualquer moeda vale pelo seu valor;  toda criança que já aprendeu a contar sabe disso. Assim, se este blog [meu coração] fosse um cofrinho, diria que o interesse maior do seu dono seria que ele estivesse sempre cheio de moedas valiosas. Infelizmente não é o que está acontecendo agora. Este é um momento difícil, em que o cofrinho está pobre, está vazio dessas moedas. Por isso é que se fala em ausência, por isso é que se fala em morte.

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A MORte

amor e morte

O amor é mais frio que a morte

Cecília e Rilke, cartas e conselhos

A seguir transcrevo parte do prefácio de Cecília Meireles à edição brasileira das Cartas a um Jovem Poeta*, escritas por Rainer Maria Rilke entre 1903 e 1908 e publicadas somente após a sua morte (1926), e integralmente a primeira dessas cartas. Recomendo sua leitura aos que de algum modo se sentem vocacionados à carreira artística, especialmente àqueles devotados às letras.  

                              

                                                                                                                                                                                 

 (…) Quanto ao conteúdo dessas dez cartas, que tão singularmente deveriam sobreviver como uma espécie de mensagem, solicitada por Kappus [o destinatário], mas útil a tantos destinos, conviria chamar a atenção do leitor para alguns dos seus pontos mais interessantes.

Inicialmente, é curioso notar — qualquer que tenha sido o destino de Kappus nas letras — o efeito que sobre o jovem poeta produziram os primeiros poemas de Rilke, muito jovem também, naquele tempo. Essa é uma das mais autênticas consagrações da poesia, no que ela possui de tradicionalmente mágico, de originalmente divino. O Rilke dessas cartas é como um intermediário de mistérios, uma espécie de oráculo, que se consulta e em que se crê.

Talvez, na verdade — e isso já vem a seguir — Kappus não lhe tenha inspirado, com seus escritos, uma veemente esperança. Mas Rilke não iria colocar, à maneira dos críticos, uma nuvem sobre os seus sonhos de fazer e sentir Poesia. De mil modos delicados, porém, lhe iria indicando as mil condições favoráveis para se aproximar do sonho, para chegar à sua margem, ao menos — uma vez que nem sempre a travessia é permitida. O que entre essas mil indicações diversas ficasse em silêncio, e mais obscuro, palpitando, aí estaria, verdadeiramente, o seu discreto, cálido, religioso conselho. Não ignorava o que é necessitar de alguém que , pela mesma época, escrevia a Auguste Rodin pedindo-lhe, por sua vez, conselhos sobre o segredo de viver e de criar.

Do exemplo que recebe, do consolo que para si extrai, pairando em redor do grande escultor como um pássaro em torno de uma rocha, vai tecendo essas cartas que são como a sua própria experiência purificada e revelada.

Por isso, as respostas de Rilke não oferecem a Kappus uma receita literária, embora digam coisas essenciais sobre o exercício da literatura. Vão mais longe: tratam da formação humana, base de toda criação artística.

De literatura, propriamente, pouco falam as cartas. Podem ser resumidos os conselhos do poeta em algumas linhas: escrever só por absoluta necessidade, evitar temas sentimentais e formas comuns, escolher as sugestões oferecidas pelo ambiente, a imaginação e a memória, não dar importância ao críticos, não ler tratados de estilo.

O resto é muito mais importante, uma vez que a parte formal da arte acaba sempre por realizar, quando atrás dela há uma imposição total de vida transbordante. Por isso, aplica-se a valorizar aos olhos do jovem Kappus a necessidade de um mundo interiror; de uma clarividência; de um gosto da solidão constante e inteligente; de uma visão diversa do amor; de uma ternura pela natureza e pelos mínimos aspectos das coisas; de uma paciência interminável; de uma aceitação leal de todas as dificuldades; de uma fidelidade à infância; de uma expectativa de Deus; de uma compreensão mais humana da mulher; de uma disciplina poética humilde e vagarosa. Mas sobretudo a solidão assume, nessas cartas, um caráter de heroísmo e de magnificência, — a ponto de poder dizer que o homem solitário pode preparar muitas coisas futuras porque as suas mãos erram menos.

***

Depois dessas dez cartas que constroem a atmosfera do pensamento e da sensibilidade de Rainer Maria Rilke, o leitor encontrará “A canção de amor e de morte do porta-estandarte Cristóvão Rilke”, escrita, como se sabe, de um fôlego, numa noite de 1899. A fama do poema atravessou rapidamente toda a Europa, e chegou à América, não sem um certo desgosto da parte do autor, que, naturalmente, conhecia o valro de outras composições suas, mais lentas em caminhar.

Esta tradução pode-se dizer que estava feita desde 1929, sobre a versão francesa de Suzanne Kra. Por que foi feita, nem se sabe, uma vez que não se premeditava a sua publicação. Decerto, pela própria simpatia que o poema desperta, pela força de que dispõe, e que o vai impelindo sempre em outros idiomas.

Sobre um poema quase nunca há nada a dizer. Deseja-se que seja amado, se for possível.

Quanto a esta versão, procurou-se aclarar sobre o texto original, antes de a publicar, algumas obscuridades da primitiva tradução. E deve-se ainda ao Sr. Paulo Rónai o favor de a ter socorrido, em certas dúvidas, assegurando-lhe, assim, uma fundamental justeza. Não se sabe é como agradecer — em tempos como estes — que um editor permita ao poeta que o mundo viu passar com modos tão sobrenaturais, levantar aqui, quase trinta anos depois de sua morte, esse rosto de sonho, que os homens secretamente reconhecerão, e com o qual ficarão comovidos e perturbados, porque, mais claro que todos, ele trazia consigo a recordação dos Anjos e das Esfinges.           

                                                                                                                                                                                Cecília Meireles                              

                                                                                                                                                                                 

 

Paris, 17 de fevereiro de 1903

Prezadíssimo Senhor,

Sua carta alcançou-me apenas há poucos dias. Quero agradecer-lhe a grande e amável confiança. Pouco mais posso fazer. Não posso entrar em considerações acerca da feição de seus versos, pois sou alheio a toda e qualquer intenção crítica. Não há nada menos apropriado para tocar numa obra de arte do que palavras de crítica, que sempre resultam em mal-entendidos mais ou menos felizes. As coisas estão longe de ser todas tão tangíveis e dizívies quanto se nos pretenderia fazer crer; a maior parte dos acontecimentos é inexprimível e ocorre num espaço em que nenhuma palavra nunca pisou. Menos suscetíveis de expressão do que qualquer outra coisa são as obras de arte, — seres misteriosos cuja vida perdura, ao lado da nossa, efêmera.

Depois de feito este reparo, dir-lhe-ei ainda que seus versos não possuem feição própria, somente acenos discretos e velados de personalidade. É o que sinto com a maior clareza no último poema Minha alma. Aí, algo de peculiar procura expressão e forma. No belo poema A Leopardi talvez uma espécie de parentesco com esse grande solitário esteja apontando. No entanto, as poesias nada têm ainda de próprio e de independente, nem mesmo a última, nem mesmo a dirigida a Leopardi. Sua amável carta que as acompanha não deixou de me explicar certa insuficiência que senti ao ler seus versos sem que a pudesse definir explicitamente. Pergunta se os seus versos são bons. Pergunta-o a mim, depois de o ter perguntado a outras pessoas. Manda-os a periódicos, compara-os com outras poesias e inquieta-se quando suas tentativas são recusadas por um ou outro redator. Pois bem — usando da licença que me deu de aconselhá-lo — peço-lhe que deixe tudo isso. O senhor está olhando para fora, e é justamente o que menos deveria fazer neste momento. Ninguém o pode aconselhar ou ajudar, — ninguém. Não há senão um caminho. Procure entrar em si mesmo. Investigue o motivo que o manda escrever; examine se estende suas raízes pelos recantos mais profundos de sua alma; confesse a si mesmo: morreria, se lhe fosse vedado escrever? Isto acima de tudo: pergunte a si mesmo na hora mais tranqüila de sua noite: “Sou mesmo forçado a escrever?” Escave dentro de si uma resposta profunda. Se for afirmativa, se puder contestar àquela pergunta severa por um forte e simples “sou”, então construa a sua vida de acordo com esta necessidade. Sua vida, até em sua hora mais indiferente e anódina, deverá tornar-se o sinal e o testemunho de tal pressão. Aproxime-se então da natureza. Depois procure, como se fosse o primeiro homem, dizer o que vê, vive, ama e perde. Não escreva poesias de amor. Evite de início as formas usuais e demasiado comuns: são essas as mais difíceis, pois precisa-se de uma força grande e amadurecida para se produzir algo de pessoal num domínio em que sobram tradições boas, algumas brilhantes. Eis por que deve fugir dos motivos gerais para aqueles que a sua própria existência cotidiana lhe oferece; relate suas mágoas e seus desejos, seus pensamentos passageiros, sua fé em qualquer beleza — relate tudo isto com íntima e humilde sinceridade. Utilize, para se exprimir, as coisas do seu ambiente, as imagens dos seus sonhos e os objetos de sua lembrança. Se a própria existência cotidiana lhe parecer pobre, não a acuse. Acuse a si mesmo, diga consigo que não é bastante poeta para extrair as suas riquezas. Para o criador, com efeito, não há pobreza nem lugar mesquinho e indiferente. Mesmo que se encontrasse numa prisão, cujas paredes impedissem todos os ruídos do mundo de chegar aos seus ouvidos, não lhe ficaria sempre sua infância, esta esplêndida e régia riqueza, esse tesouro de recordações? Volte a atenção para ela. Procure soerguer as sensações submersas deste longínquo passado: sua personalidade há de reforçar-se, sua solidão há de alargar-se e transformar-se numa habitação entre o lusco e fusco diante do qual o ruído dos outros passa longe, sem nela penetrar. Se depois desta volta para dentro, deste ensimesmar-se, brotarem versos, não mais pensará em perguntar seja a quem for se são bons. Nem tão pouco tentará interessar as revistas por esses seus trabalhos, pois há de ver neles sua querida propriedade natural, um pedaço e uma voz de sua vida. Uma obra de arte é boa quando nasceu por necessidade. Neste caráter de origem está o seu critério, — o único existente. Também, meu prezado Senhor, não lhe posso dar outro conselho fora deste: entrar em si e examinar as profundidades de onde jorra sua vida; na fonte desta é que encontrará resposta à questão de saber se deve criar. Aceite-a tal como se lhe apresentar à primeira vista sem procurar interpretá-la. Talvez venha significar que o Senhor é chamado a ser um artista. Nesse caso aceite o destino e carregue-o com seu peso e a sua grandeza, sem nunca se preocupar com recompensa que possa vir de fora. O criador, com efeito, deve ser um mundo para si mesmo e encontrar tudo em si e nessa natureza a que se aliou.

Mas talvez se dê o caso de, após essa decida em si mesmo e em seu âmago solitário, ter o Senhor de renunciar a se tornar poeta. (Basta como já disse, sentir que se poderia viver sem escrever para não mais se ter o direito de fazê-lo). Mesmo assim, o exame de sua consciência que lhe peço não terá sido inútil. Sua vida, a partir desse momento, há de encontrar caminhos próprios. Que sejam bons, ricos e largos é o que lhe desejo, muito mais do que lhe posso exprimir.

Que mais lhe devo dizer? Parece-me que tudo foi acentuado segundo convinha. Afinal de contas, queria apenas sugerir-lhe que se deixasse chegar com discrição e gravidade ao termo de sua evolução. Nada a poderia perturbar mais do que olhar para fora e aguardar de fora respostas a perguntas a que talvez somente seu sentimento mais íntimo possa responder na hora mais silenciosa.

Foi com alegria que encontrei em sua carta o nome do professor Horacek; guardo por este amável sábio uma grande estima e uma gratidão que desafia os anos. Fale-lhe, por favor, neste meu sentimento. É bondade dele lembrar-se ainda de mim; e eu sei apreciá-la.

Restituo-lhe ao mesmo tempo os versos que me veio confiar amigavelmente. Agradeço-lhe mais uma vez a grandeza e a cordialidade de sua confiança. Procurei por meio desta resposta sincera, feita o melhor que pude, tornar-me um pouco mais digno dela do que realmente sou, em minha qualidade de estranho.

Com todo o devotamento e toda simpatia,  

Rainer Maria Rilke

 

 

* Cartas a um Jovem Poeta (tradução de Paulo Rónai) e A Canção de Amor e de Morte do Porta-Estandarte Cristóvão Rilke (tradução de Cecília Meireles), ed. Globo, 8a edição, 1976.