coisas de criança, coisas de adulto

Quando criança, não fazia a menor ideia do que eram os tais lactobacílos no Yakult. O que me impressionava mesmo era o fato de eles estarem vivos. Mas era tão gostosa a bebida que eu não tava nem aí, enchia a cara se pudesse, sem medo de ser feliz! Criança é assim, não liga muito pro perigo e pra morte em última instância; esta não faz parte do seu universo, do seu imaginário, da sua vida. Ela só quer a felicidade, a qualquer preço.

Quando adultos, muitas vezes somos semelhantes às crianças, não temendo  tanto a morte, que passa a significar pouco ou nada pra nós. Mas crianças doentes, a bem da verdade, pois tememos a vida, posicionando-nos negativamente perante ela. E se assim vivemos por que então temer a morte? Não há mesmo razão para tal. Esta é a lógica do absurdo. Deveria ser diferente, pois como diz aquela canção, o caminho da vida é a morte, e não o contrário.

Obs.: evidentemente os lactobacílos vivos do Yakult não representam qualquer perigo à saúde, muito pelo contrário.  Usei-os apenas para ilustrar o tema. A propósito, eles são usados e abusados por nós todos os dias, que os consumimos e assim os matamos (eu acho). Daí que li em algum lugar essa piadinha:  ora, onde estão os seus direitos, como seres vivos e tão benéficos que são? Pois é, o tom da pergunta é jocoso, mas ela faz sentido…

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Cerejeiras em Flor

Eis uma das cenas de filme mais bonitas e delicadas que assisti recentemente. Trata-se de um verdadeiro poema visual, cuja simplicidade e lirismo dispensam qualquer palavra ou explicação. É altamente recomendável que se assista o filme inteiro, do começo ao fim, a fim de que se possa interpretar o momento dentro de seu contexto, alcançando-se uma compreensão mais profunda de toda sua beleza, uma fruição maior do prazer estético que ele proporciona aos olhos, aos ouvidos e ao coração. Chama-se Cerejeiras em Flor (Cherry Blossoms – Kirschblüten – Hanami, 2008) e é da diretora alemã Doris Dörrie.

verso versátil

Eu pergunto: Isso é vida?

[Mário de Andrade em Lira paulistana]

O poema todo é muito bonito, interessante, vale a pena conhecê-lo; ouvi-o há muitos anos, mas apenas esse verso permanece vivo e presente em minha lembrança… Ainda que descontextualizado e solitário, por assim dizer, é um dos meus prediletos!

auto-retrato

Eu queria fazer da minha alma branca uma tela
Uma aquarela de cores claras e suaves, mas muito vivas
Onde se perdesse a vista na vastidão de uma paisagem distante
Um entardecer de outono no campo ou nas montanhas
O céu todo em matizes, do azul mais claro ao vermelho quase alaranjado
O sol agradavelmente ameno, acariciado pelas nuvens
Uma atmosfera leve, alegre, calma, tranquila, serena
E um horizonte infinito, sem contornos, sem limites…
Eu queria fazer da minha alma branca uma aquarela!

da comunicação, do amor e da vida

A verdade é que eu gosto de me comunicar, e gosto muito, amo! Portanto, detesto quem não se comunica ou se comunica muito pouco. Aqueles que não se comunicam acho que é porque não amam e porque estão mortos, ao menos em algum sentido. Para mim viver é amar, e amar é estar em comunicação.

morro afogado, mas não de sede

Sob a torneira da realidade, minhas mãos formando conchas. O jato de água representa a existência, o existir num fluxo contínuo, como falava Heráclito. Uma grande sede.

 

esguichando abundante, forte e rápida, a existência me encharca dos pés à cabeça. Entretanto, dela quase nada consigo reter nas mãos para beber. Paradoxo.

Tento girar a torneira da realidade para diminuir a pressão do fluxo, mas parece que ela está emperrada. Dura realidade! Emprego toda a minha força, até grito, mas nada.

Tanto esforço só faz aumentar a minha sede. Minha língua está pra fora. Eu já estou meio pra fora de mim mesmo, ausentando-me do meu ser que desfalece lentamente. 

Inconsequente, perco a razão: resolvo meter a boca diretamente na torneira! Então a água da existência invade com ímpeto a minha goela e instantaneamente passa a jorrar das minhas narinas e ouvidos. Minha cabeça agora é um chafariz.

O meu ser afogou-se na existência, tragicomicamente eu morri!

Acordo então subitamente. É madrugada, estou suado e com sede.

uma palavrinha sobre a nobreza de caráter

Ser nobre é também ter o coração e alma grandes, compadecer-se das misérias humanas, saber perdoar a quem de fato se arrepende do mal que causou, voltar-se ao outro em suas necessidades e aflições, etc. 

Assim, nobreza e magnanimidade andam sempre juntas, até se confundem; não pode ser nobre portanto quem é mesquinho e egoísta, quem vive apenas para si e pouco se importa com o bem-estar físico ou espiritual do seu próximo.

Embora o tema seja-me muito caro e eu volta-e-meia pense nele, ocorreu-me escrever isso hoje, depois de assistir a Fedra, obra-prima do genial Racine, que recomendo muitíssimo.